Kruzes Kanhoto

Ainda que todos, eu não!

Turismo de escravatura voluntária

Diz que há falta de mão de obra em quase todos os sectores produtivos. Nomeadamente nos mais mal pagos. O pessoal não quer trabalhar por tuta e meia, a generosidade do Estado-social não incentiva ninguém a fazer-se à vida e nas localidades mais pequenas do interior, as autarquias locais absorvem toda a força de trabalho disponível nos respectivos municipios. A que precisam e a que não precisam. O que não tem mal nenhum. É uma maneira de evitar a desertificação total de muitos concelhos. Embora, desconfio eu porque ninguém me contou, a ideia dos autarcas recrutadores tenha mais ver com estratégias eleitorais. O que também é legitimo e pouco tem de inovador.

Se estamos perante a escassez de quem se disponha a bulir, sobejam os que estão dispostos a pagar por novas “experiências”. Que é o que os “urbanitas” chamam às tristes figuras pelas quais pagam para fazer coisas que outros recusam a fazer ainda que lhes paguem. É o caso da apanha da azeitona. Não há quem a queira apanhar, que aquilo é um trabalho lixado. A solução é chamar-lhe experiência e convencer uns quantos patetas a pagar para a apanhar.

Trata-se, convenhamos, de uma ideia genial. Nem sei como não é aplicada em larga escala noutros sectores de actividade que, tal como a agricultura, apresentam níveis preocupantes de dificuldade de recrutamento de trabalhadores. A restauração, por exemplo, podia proporcionar “experiências” a tirar cafés, servir à mesa ou confecionar bifanas. Ou, já que tanto se fala na necessidade de construir casas para resolver o problema da habitação, as empresas do sector podiam proporcionar uma “experiência” no âmbito da construção civil. Um dia a carregar baldes de massa, abrir roços e outros trabalhos parecidos era coisa capaz de abrir novos horizontes a quem estivesse disposto a vive-la. E, sugestão minha, com desconto para a malta das manifestações.

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