Kruzes Kanhoto

Ainda que todos, eu não!

Geração quarta-feira

Nesta moderna fixação em colar etiquetas e dar nomes às gerações, desconfio que o espectro é generosamente alargado. A dita geração boomer – na qual, com todo o orgulho estrutural, me incluo – está longe de constituir um grupo de características homogéneas. Nem, sequer, vagamente parecidas. Nomeadamente no que toca às oportunidades que a sorte distribuiu. Para o bem e para o mal. Se calhar, para os nascidos nos anos sessenta e até ao 25A, seria mais apropriada a designação de "geração quarta-feira". Aquele dia cinzento e útil no meio da semana em que a ressaca do fim de semana passado já passou e o entusiasmo do próximo ainda é uma miragem distante. Ou seja, algo ali no meio-termo que nem é carne nem é peixe.

Trata-se de uma geração que, ao contrário dos primeiros boomers, não passou pela guerra colonial. Nem por nenhuma outra, diga-se. Ainda. Em matéria de combates, digamos que até agora apenas combateu com alguma tenacidade por si própria. Nem, muito provavelmente, terá a maçada de se envolver num conflito futuro. Até porque já nem temos idade para essas tropelias.

Será, no entanto, esta geração quarta-feira a última a dar-se ao luxo de viver praticamente toda a sua existência emvliberdade. As próximas gerações dificilmente conseguirão tal proeza. Ou, vendo bem as coisas, sequer o quererão. Afinal, os sinais de que a liberdade tal como a conhecemos, a democracia e o nosso confortável modo de vida liberal estão a chegar ao seu prazo de validade são generosamente evidentes. Tal como numa popular série televisiva, o Inverno está a chegar e o frio já vai causando alguns arrepios. Que o digam os habitantes de Ceuta e todos aqueles que por essa Europa fora — nomeadamente as mulheres — têm a sua rotina condicionalmente ajustada pelas hordas invasoras que, paulatinamente e com o nosso mais virtuoso consentimento, vão impondo nas nossas civilizadas sociedades a sua particular maneira de ver o mundo.

Atrás de tempos, tempos vêm. E gerações, também. Um dia – distante, talvez – virá finalmente aquela a que alguém, com apurado sentido histórico, chamará a geração Pelágio.

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