Enquanto vai desaparecendo a passos largos do mapa eleitoral, a esquerda mais à esquerda continua empenhada em descobrir novas causas existenciais a que se agarrar, só para garantir o precioso espaço mediático. Afinal, é nas televisões que estas lutas heróicas ganham verdadeira escala, empurradas por activistas profissionais que pululam pelos corredores dos estúdios. Pouco importa que os motivos sejam fúteis, completamente despropositados ou, na esmagadora maioria das vezes, simplesmente hilariantes.
Enquadrado nesta última categoria estava o ajuntamento a que assisti hoje de manhã, num canal televisivo qualquer, enquanto tomava o pequeno-almoço. A reportagem exibia os protestos inflamados de um grupo de aguerridos estudantes do secundário. Pelos vistos, os moços têm uma birra irreconciliável com os exames. Não servem para melhorar a qualidade do ensino e ainda contribuem — juro que o catraio disse isto — para “separar os bons dos maus”. Uma discriminação atroz e abominável, como é óbvio. Uma verdadeira heresia digna deste sistema capitalista feroz que urge derrubar imediatamente, acrescento eu em jeito de solidariedade revolucionária.
É, de facto, intolerável que esta meritocracia arcaica insista em colocar insuportáveis entraves no acesso ao ensino superior ou ao mercado de trabalho. Toda a gente precisa de ganhar a vida e, cá para mim, devíamos todos ser doutores, engenheiros ou astronautas por decreto, mesmo que nunca tivessem resolvido uma equação ou aberto um livro.
Para astronauta, por exemplo, bastaria ter passado por todos os graus de ensino sempre com a cabeça na Lua, contar com uma nave construída por engenheiros que se estão marimbando para as leis da física e, na elevadíssima improbabilidade de alguma coisa correr mal no meio do espaço, ser socorrido por um médico que dos efeitos da ciência apenas conhece a parte recreativa. E quem ousar discordar desta visão progressista, claro está, é fascista.